terça-feira, 23 de novembro de 2010

Uma didática da Invenção... poeta Manoel de Barros.



I

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III

Repetir repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.

VIII

Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.

XIX

Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X

Não tem altura o silêncio das pedras.

XI

Adoecer de nós a Natureza:
– Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin).

XII

Pegar no espaço contigüidades verbais é o
mesmo que pegar mosca no hospício para dar
banho nelas.
Essa é uma prática sem dor.
É como estar amanhecido a pássaros.

Qualquer defeito vegetal de um pássaro pode
modificar os seus gorjeios.

XIII

As coisas não querem mais ser vistas por
pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.

XIV

Poesia é voar fora da asa.

XV

Aos blocos semânticos dar equilíbrio. Onde o
abstrato entre, amarre com arame. Ao lado de
um primal deixe um termo erudito. Aplique na
aridez intumescências. Encoste um cago ao
sublime. E no solene um pênis sujo.

XVI

Entra um chamejamento de luxúria em mim:
Ela há de se deitar sobre meu corpo em toda
a espessura de sua boca!
Agora estou varado de entremências.
(Sou pervertido pelas castidades? Santificado
pelas imundícias?)

Há certas frases que se iluminam pelo opaco.

XVII

Em casa de caramujo até o sol encarde.

XVIII

As coisas da terra lhe davam gala.
Se batesse um azul no horizonte seu olho
entoasse.
Todos lhe ensinavam para inútil
Aves faziam bosta nos seus cabelos.

XIX

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

XX

Lembro um menino repetindo as tardes naquele
quintal.

XXI

Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia me vou no Morais
ou no Viterbo –
A fim de consertar a minha ignorãça,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
– Ser ou não ser, eis a questão.
Ou na porta dos cemitérios:
– Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
Ou no verso das folhinhas:
– Conhece-te a ti mesmo.
Ou na boca do povinho:
Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco.
Etc.
Etc.
Etc.

Maior que o infinito é a encomenda.

Fonte: Moriconi, I. 2001. Os cem melhores poemas brasileiros do século. RJ, Objetiva. Poema originalmente publicado em 1993

Poesia é voar fora da asa...

Quando se sai para pensar e encontra-se memórias... e brinca-se com elas.

Produção de vídeo.

Pedra Azul from Hugo Silva on Vimeo.

A hybris devora Nietzsche

Nossas reflexões sobre o extraordinário leva-nos as idéias de Nietzsche sobre o advento do "superhomem", especialmente transposta na obra "Assim falava Zaratustra".

O filme "Dias de Nietzsche em Turim", produção brasileira dirigida por Julio Bressane, oferece um retrato do filósofo sucumbindo à sua própria vivência de intensos sentimentos estéticos, nos últimos anos de sua vida.


Hybris devora Nietzsche from Hugo Silva on Vimeo.

O extraordinário é a morada do Homem.

"O extraordinário é a morada do Homem"... frase atribuída a Heráclito de Éfeso (aprox. 540-470 a.C.)
A palavra para "morada" utilizada na frase é Ethos, trazendo em si tanto o significado de morada e habitat, como de costume, modo, estilo habitual de ser.

Ethos é também a raíz do termo Ética.

Seguindo as pistas de Heráclito trazemos o "extraordinário" próximo ao contexto da "ética" e chegamos a ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que ambicionou o advento de um "superhomem", ou "além-do-homem" (übermensch) proposição que pode ser contraposta à obra do romancista russo Fiodór Dostoievski (1821-1881), seu contemporâneo.


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Se em "Assim falava Zaratustra", obra do filósofo alemão, o além-do-homem é anunciado e exortado na sua superação da ética e moral judaica-cristã reinante, em "Crime e Castigo", do romancista russo, o homem é incapaz de superar sua condição humana e os grilhões da culpa.

Referências:

A frase de Heráclito é epígrafe do ensaio intitulado "Da órbita do ordinário à orbe do extraordinário", do prof. Miguel Almir de Lima Araújo (UEFS e UNEB).

José Zacarias de Souza assina o artigo intitulado "Nietzsche e Dostoiévski: uma possivel conexão".

NIETZSCHE, Friedrich, Assim falava Zaratustra, trad. Silvio Ferreira Leite, São Paulo : Centauro, 2007.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor, Crime e Castigo, trad. Luiz Cláudio de Castro, Rio de Janeiro : Ediouro, 1998.



Botar aflição nas pedras...

Vídeo de Cléia Alves, a partir do workshop "1 1/2 min de Instantes Poéticos" com o Grupo X de Improvisação em Dança no Palacete das Artes-Museu Rodin.


Um girassol se apropriou de Deus...